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Reflexões

26/2/2010

Estrangeiros e peregrinos

Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Hebreus 11:13

Durante quase quatro anos vivi no exterior. Deitado na cama, num quartinho nos fundos de uma casa em Sydney, Austrália, eu via minha mala, em cima do guarda-roupa.

Para mim, aquele era o símbolo de que eu não viera para ficar. Parece que a mala me dizia: “Você não é daqui! É um estrangeiro, e logo irá embora!” E eu sabia que não devia me demorar muito por lá. Caso contrário, correria o risco de me sentir estrangeiro em meu próprio país, ao voltar.

Essa sensação de transitoriedade leva o forasteiro a não fazer grandes planos para o futuro, numa terra estranha. Ele não se entrega inteiramente ao lugar. Procura não se fixar, pois sabe que dentro de mais algum tempo arrumará as malas, cortará os laços que formou e partirá para sua terra natal.

Entretanto, o desejo de permanência é comum a todos nós. Queremos nos estabelecer, criar raízes. Como cristãos, porém, sabemos que devemos nos sentir neste mundo como Abraão, o qual, “pela fé, peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11:9, 10).

O autor sagrado se referia aos patriarcas, que buscavam pela fé, uma pátria melhor, infinitamente superior àquela que sua peregrinação terrena conseguiria obter. O povo de Israel foi estrangeiro e peregrino, cumprindo assim, a promessa feita a Abraão: “Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão” (Gn 15:13). Davi declarou em oração: “Sou forasteiro à Tua presença, peregrino como todos os meus pais o foram” (Sl 39:12).

A figura do peregrino, do estrangeiro, povoa as páginas da Bíblia, como símbolo da vida do cristão em sua jornada para a Canaã celestial, pois esta não é a nossa pátria. Estamos apenas acampando aqui. Em Cristo, porém, somos cidadãos do reino de Deus: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef 2:19).

Os patriarcas, com exceção de Enoque, morreram sem ter obtido as promessas. Mas pela fé as vislumbraram de longe. Hoje, o cristão já pode aguardar o seu cumprimento de perto.

RUBEM M. SCHEFFEL